Rebreathers, Live Aboards e Expedições

por José Mario Ventura (artigo publicado originalmente no site Brasil Mergulho)

Água quente, boa visibilidade, inumeros naufrágios, um barco de alto nível, cilindros duplos, stages e muita mordomia. O que falta a um cenário destes? Provavelmente nada para maioria dos mergulhadores técnicos em sã consciência. Entretanto, se nos colocarmos em uma perspectiva de viagem de longa duração provavelmente vai faltar espaço! Mergulhadores técnicos tem o costume de carregar tudo e mais alguma coisa nas suas viagens, e não é a toa! Será que os rebreathers tem uma função na resolução desse e de outros problemas? Com certeza! Os rebreathers são a ferramenta ideal para esse cenário e para outros tantos.

O que um grupo de mergulhadores técnicos precisaria ter em um barco de mergulho do tipo Live Aboard para para fazerem mergulhos técnicos durante uma semana? É muito quipamento, cilindros, reguladores, gases medicinais para misturas gasosas, compressor, etc. Expedições de mergulho a lugares remotos, como cavernas inexploradas, também se beneficiam do uso dos rebreathers. Hoje é prática comum o uso deste equipamento em mergulhos exploratórios de cavernas em quase todos os continentes. Outro equipamento que tem acompanhado o rebreather nessas aventuras é o gas booster. O uso em conjunto dessas máquinas permite que um mergulhador ao invés de levar o seu equipamento pessoal, compressor, cilindros duplos, stages e ter que girar o compressor para encher tudo isso todos os dias, possa simplesmente levar o seu rebreather, o seu booster e uns cilindros com oxigênio e diluente, muito menores do que os cilindros medicinais que estamos habituados a ver. Isto reduz drásticamente a quantidade de equipamentos necessários para uma expedição e aumenta muito a quantidade de horas de mergulho por kilograma transportado, e também, por hora de compressor.

Pensando em uma semana de mergulhos técnicos, a quantidade de gases necessários para que um grupo de mergulhadores possa encher seus cilindros de fundo com misturas de nitrox e trimix, e seus cilindros de stage com misturas de descompressão é muito grande.

Vamos contabilizar apenas o volume de gás de fundo necessário para que um mergulhador com consumo na superfície de 15 litros por minuto, fique por exemplo 20 minutos na Corveta Camaquã a 55 metros, sem contar a descompressão. Bem, 20 minutos x 15 l/minuto x 6.5 ata, temos então 1.950 litros x 1.5 de reserva, o que dá um total de 2.925 litros. E se colocarmos um custo sobre isso? Vamos ver, são praticamente 3.000 litros, isto é, uma dupla de 15 litros (30 litros no total) carregada a uma pressão de 200 bar de trimix. Mais oxigênio e EAN50 para fazer a descompressão... não é barato! O detalhe é que para repetirmos o mesmo mergulho teriamos que fazer nova recarga, já que o que sobrar no cilindro não é suficiente para se fazer outro mergulho com segurança.

Vamos agora fazer a conta para um rebreather de circuito fechado eletrônico para comparar. Típicamente estes rebreathers têm dois cilindros de 3 ou 4 litros, um de diluente e outro de oxigênio. O que o nosso corpo consome é o oxigênio, os gases inertes como o nitrogênio e o hélio são em pequena parte absorvidos pelos tecidos do corpo e na sua grande maioria exalados de volta para o circuito respiratório para serem, juntamente com o que sobra de oxigênio e dióxido de carbono, “filtrados” e levados de volta para o mergulhador. Esse processo faz com que o mergulhador, numa situação ideal, consuma apenas oxigênio. Sempre que a concentração de oxigênio estiver abaixo do nível desejado um solenoide vai adicionar oxigênio do cilindro ao ciclo respiratório. Bem, sendo assim, o nosso consumo em um rebreather é na verdade metabólico e a profundidade do nosso mergulho não afeta o nosso consumo. O que pode afetar o consumo metabolico é o nível de estresse do mergulho, carga de tarefas, correnteza, etc. O consumo de oxigênio por um mergulhador de rebreather em um mergulho típico é de 1 a 2 litros por minuto. Teóricamente existe a possibilidade de não se consumir diluente (ar, trimix, etc) mas para isso não poderiamos descer na coluna de água, nem colocar ar no colete, nem tão pouco desalagar a mascara. Podemos assumir que temos um consumo de diluente equivalente ao de oxigênio, 1 a 2 litros por minuto. Vamos calcular a quantidade de oxigênio e diluente necessários para ficarmos não 20 mas 40 minutos a 55 metros. São 40 minutos x 2 l/min, o que dá 80 litros de oxigênio mais 80 litros de diluente. Um cilindro de quatro litros carregado a 180 bar tem uma capacidade de 720 litros. Com apenas uma recarga podemos executar uma série de mergulhos. Isto significa que a quantidade de gases necessários a bordo da embarcação é muito menor do que se estivessemos em circuito aberto. Pensando em uma operação com vários mergulhadores em um Live Aboard, além de não ser necessária a recarga após cada mergulho, mesmo quando esta for necessária o tempo gasto é muito menor, os cilindros do rebreather tem juntos de 6 a 8 litros, contra os 24 a 36 litros do circuito aberto.

Mergulhos na corveta Camaquã com rebreather são incomuns mas a bordo do VOYAGER, o Live Aboard operado pela ATLANTIS DIVERS para mergulhar nos belos naufrágios do Nordeste, tem acontecido alguns mergulhos assim. Em geral mergulhadores técnicos de circuito aberto fazem entre 20 e 30 minutos de tempo de fundo na Camaquã. Patrick Muller e Marcus Werneck usando um rebreather Halcyon RB80 já ficaram mais de uma hora no fundo e, em recente viagem, eu usando um rebreather Dive Rite O2ptima e Marcus Werneck em rebreather RB80 ficamos perto disso. Em circuito aberto um mergulho de uma hora a essa profundidade se torna extremamente trabalhoso em termos de preparação de gases, configuração do equipamento e condução do mergulho. O rebreather neste caso permitiu um maior tempo de fundo com uma quantidade de equipamentos menor. Em um naufrágio com quase 60 metros de comprimento e com tantas atrações é bom poder contar com esse tempo extendido. O mesmo acontece no Vapor dos 48. Apesar de não estar tão intacto quanto a Camaquã, este vapor de identidade desconhecida também tem muito o que se ver. A uma profundidade de 48 metros o tempo de fundo permitido é controlado pelo suprimento de gás da dupla, a não ser que se vá de rebreather. É claro que não são apenas coisas boas que acontecem nestes cenários. Como a técnologia ainda é pouco divulgada, mergulhadores de rebreather normalmente dividem embarcações com mergulhadores técnicos de circuito aberto. Não costuma ser agradável a volta de alguns mergulhos já que o tempo submerso dos mergulhadores de rebreather costuma ser muito maior, fazendo uma boa parte do barco ter que esperar enquanto eles se divertem. Após duas horas e meia de mergulho na Camaquã, Marcos Werneck e eu não fomos propriamente bem recebidos de volta ao VOYAGER pelos colegas Nico, Akira, Gaba, Sandra, Adriana, Ricardo e Josualdo, sem falar na jura de morte do Mestre Djalma.


O O2ptima e o RB80 na Corveta Camaquã

Vamos imaginar uma expedição com meia duzia de mergulhadores tendo que fazer dois mergulhos por dia durante um mês para mapear uma caverna em um lugar remoto. Se contabilizarmos o tempo e o custo operacional o uso do rebreather faz todo o sentido. Mapeamentos requerem um grande numero de horas na água, muitas vezes a grande profundidade, o custo operacional em mergulhos fundos com trimix é muito menor com o rebreather. Também requerem mergulhos de longa duração para coleta de dados, o uso do rebreather permite mergulhos com tempo de fundo extendidos o que pode tornar uma expedição muito mais eficiente. Como já foi mencionado, a preparação de misturas e recarga de cilindros se torna mais rápida, ganha-se mais tempo para descansar e planejar os mergulhos. Uma caverna inexplorada ou com pouca visitação costuma soltar sedimentos do teto quando as bolhas dos mergulhadores por ali passam, a grande diminuição da quantidade de bolhas geradas pelo rebreather também o faz ideal para esta situação. Imaginem coletar dados e fazer anotações enquanto a visibilidade diminui. Mergulhos de longa duração também tem uma carga negativa no conforto térmico do mergulhador, mesmo com excelentes roupas de exposição. A reação que transforma o dióxido de carbôno exalado pelo mergulhador em carbonato de cálcio também gera calor, o que ajuda a manter o conforto térmico do mergulhador de rebreather. Emergências em cavernas são raras, mas podem acontecer. O tempo é o que um mergulhador tem de mais precioso nessa situação. Normalmente é o suprimento de gás que determina o tempo que um mergulhador tem. Com o uso de rebreathers os mergulhadores ganham também a capacidade de permanecer submersos por mais tempo, especialmente em situações de emergência.


Mergulhador de rebreather se preparando para entrar na água

Os rebreathers têm vantagens sobre o circuito aberto mas, infelizmente, tambem trazem desvantagens, ou melhor, desafios. Para começar eles são equipamentos relativamente caros, enquanto um mergulhador técnico pode ir comprando as coisas a pouco e pouco o mergulhador de rebreather tem que comprar de uma vez só, e é uma paulada. A operação dessas máquinas, principalmente de circuito fechado eletrônico, é mais complicada e requer um nível de atenção elevado. Os rebreathers requerem treinamento específico para cada unidade, o que gera mais um custo. No Brasil existe ainda o desafio de se encontrar parceiros de mergulho que usem essa tecnologia já que ainda são poucos os mergulhadores que se aventuraram para o uso de rebreathers. Quem teve a oportunidade de ir mergulhar em pontos de mergulho técnico no exterior recentemente pôde ver a quantidade de mergulhadores que usam esse equipamento, e a cada dia aumenta mais. A disponibilidade de rebreathers em grande escala para o público em geral começou no meio da década passada e ainda não atingiu a maturidade. Nos próximos anos devemos assistir a uma expansão ainda maior nas vendas e uso de rebreathers. Vamos torcer para que essa expansão também se dê no Brasil.

 

Agradecimentos: Patrick Muller e toda a equipe Voyager/Atlantis, Gabriel Ganme e toda a equipe Diving College, Gaba e a equipe Aquáticos, Marcos Werneck.

 

 

 

 

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